quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

POEMA PARA A EXORCISTA

A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates nocturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afecto e de amizade.

Mario Vargas Llosa
Nova Iorque, novembro de 2001.
(versão de Pedro Calouste)


Aproveitem a poesia.

Guilherme de M. Trindade

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Lembranças para Mariana...


Hoje me flagrei que nossas idades nos ultrapassam.
Olhando pra trás me descobri prisioneiro do passado.
Não consigo me desapegar de nossa infância. Dos almoços de mesa cheia, das brigas e dos perdões (mais brigas do que perdões).

Não consigo me desapegar de quando tomavas conta de nós. Das torradas com orégano e das gemadas. De quando acobertava alguns pecados escolares e, de quando no auge de minha rebeldia me levaste para furar a orelha.

Parece que há poucos dias atrás viajamos escondidos. Lembro-me que ainda ontem me ensinaste o que fazer no meu primeiro dia na faculdade.

Creio que por ainda viver destas lembranças, é que o tempo me pegou desprevenido e, a saudade destas grandes pequenezas não admite a imagem da figura adulta que vemos no espelho, mesmo que o tempo não nos tenha sido um algoz implacável.

Alcançaste o esplendor da tua condição. E mesmo que não passem de tolices, continuas refém de minhas lembranças. Está intrínseco em nossa existência que provarás muitos sabores antes de mim e, caberá a nós mantermos viva a memória para que possamos viver o presente em nossos reencontros de mesa cheia.

Continues sendo essencial para nós.

Guilherme de M. Trindade

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"De ontem em diante" (O Teatro Mágico)

De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.

Aproveitem a poesia.
Guilherme de M. Trindade

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Fracasso "lato sensu"

Amanhã completo meio cinqüentenário de vida! Há quem diga que com tão ínfima existência poucas conclusões são passíveis de abstração.

Todavia, o sentimento que me permeia é o do fracasso lato sensu. Poderão àqueles suscitar que se trata da “crise do meio cinqüentenário”. Discordo.

Minha justificativa bebe na fonte da teoria de que em 25 anos de vida já adquirimos tempo suficiente para a realização de grandes feitos.

Corroborando, Alexandre, o Grande, com 25 anos de idade já havia conquistado um império que se estendia da Grécia ao Rio Indo. Bill Gates, com 19 anos já havia fundado a Microsoft. Os integrantes dos Beatles, com bem menos de 25, já eram mais populares que Jesus Cristo, sendo que o próprio Cristo, até os 12 obrigou-se ao exílio no Egito para refugiar-se das empreitadas de Herodes que mobilizara o antigo mundo para matá-lo. Isto para ficar “só” nestes exemplos.

No mesmo ínterim, meu fracasso é notável, senão vejamos: não conquistei territórios, com exceção de um apartamento de pouco mais de 40m² onde um contrato locatício me outorga poderes sobre o mesmo. Não inventei nada que pudesse revolucionar o mundo e, tão pouco descobri a cura de uma moléstia sem cura. Não compus uma canção boa o suficiente embalar paixões. Não dei a volta ao mundo. Não tenho uma Ferrari. Não virei astronauta e nem fui um exímio jogador de futebol. Não fui pra guerra. Não chorei assistindo “E o vento levou”. Não sou milionário. Não escrevi um livro, jamais plantei uma árvore, não casei e não tenho filhos. Sequer sou procurado pela polícia!

Sou apenas mais um “mortal” que trabalha para sobreviver, e não alguém que vive para trabalhar.

Num cativeiro (mundo) onde a falta de tempo é a atriz principal do filme da vida, nossas vontades quedam por acostumar-se com o papel de coadjuvante e, via de regra, a necessidade de viver todos os dias sob a mira das preocupações (ser moral, comer, vestir e sentir-se vivo), faz com que nossas escolhas nem sempre se mostrem alavancadoras de uma vida repleta de grandes feitos. E lá se vão 25 anos.

Não tenho por objetivo elevar meu pessimismo ao nível de Schopenhauer ou Friedrich Nietzsche, mas tão somente buscar uma reflexão de o porquê e pelo quê parabenizamos as pessoas pelos seus nascimentos. Todos seriam, de fato, dignos de tal homenagem? Creio/temo que não.

Assim, no dia 18 de setembro, cada “parabéns a você” a mim dirigido trará incutida a seguinte reflexão “Parabéns pelo quê?”. Visando superá-la, proponho-me lutar no sentido de não continuar sendo um fracasso. Para tanto, terei de viver mais os próximos 25 anos.

Aproveitem as reflexões.

Guilherme de M. Trindade

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

20 de Julho Dia internacional do amigo...

Conforme se é sabido, no dia 20 de julho celebrou-se, de forma internacional, o Dia do Amigo.

Neste ínterim, tive por bem postar, ainda que de forma tardia, os escritos de Oscar Wilde, escritor Irlandês, a fim de homenagear os meus amigos, eis que imprescindíveis para a manutenção diária de minha existência.

Loucos e Santos (Oscar Wilde)

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero os santos,
para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim:
metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de
Aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.



Aproveitem seus amigos.

Guilherme de M. Trindade

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Comercial de farinha...memorável...

Aproveitem a criatividade

Guilherme de M. Trindade